Nos últimos anos, os carros elétricos e híbridos têm ganhado espaço no mercado automobilístico. No processo decisório de trocar o veículo à combustão por uma opção menos nociva para o meio ambiente, uma das principais dúvidas dos compradores é em relação ao descarte das baterias.A maioria delas é feita de íons de lítio e suas variantes. As baterias de lítio (LFP) dominam o mercado de carros elétricos por serem muito seguras, não esquentarem com facilidade e durarem muitos anos. Porém, a mineração do material é complicada (ele se encontra, muitas vezes, em áreas de conflito, como no Congo), e gasta quantidades enormes de água.O fim da vida das baterias é outro problema. De acordo com especialistas, o descarte do lítio exige um controle rigoroso, seguindo diretrizes governamentais e ambientais.Se as baterias forem descartadas diretamente no meio ambiente, como em terrenos, áreas urbanas, lixo comum ou rios, elas podem causar sérios danos ao ecossistema e à saúde da população. Os metais pesados podem contaminar o solo e a água até atingir os lençóis freáticos, comprometendo o uso dos recursos hídricos para consumo humano e irrigação agrícola. Leia também CiênciaDescarte incorreto de antibióticos ajuda superbactérias a se multiplicar CiênciaDescarte incorreto de eletrônicos pode causar danos ao meio ambiente CiênciaÁlbum da Copa: papel que sobra da figurinha precisa de descarte especial Conteúdo especialSP ganha 1º ecoponto têxtil para descarte adequado de sobras de tecido O engenheiro eletricista Iury Bessa, professor da Universidade Federal do Amazonas (Ufam) apoiado pelo Instituto Serrapilheira, afirma que, no setor automotivo, cabe especialmente às montadoras estruturar e operacionalizar a logística reversa para o descarte das baterias.A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) institui a responsabilidade compartilhada entre todos os elos da cadeia — compostos por fabricantes, importadores, distribuidores e consumidores — para o gerenciamento adequado pós-consumo.“Ao atingir o fim da vida útil ou precisar de troca na garantia, o equipamento deve ser entregue à concessionária ou rede autorizada para recolhimento e encaminhamento seguro. Antes da reciclagem direta, destaca-se o reaproveitamento em segunda vida, no qual baterias sem autonomia para tração automotiva podem ser reutilizadas em outras aplicações”, diz.Segundo Bessa, os estabelecimentos que recebem o material necessitam de licenciamento ambiental específico, enquanto a operação de logística reversa precisa ser homologada pelo Ibama, além de ter sua rastreabilidade assegurada por controles e certificados eletrônicos.Futuramente, a tendência é que seja implementada uma espécie de “passaporte da bateria”. “Trata-se de um registro digital que permite monitorar todo o ciclo de vida do equipamento, englobando desde o histórico de ciclos de carga até a sua jornada completa, da fabricação à destinação final (como em uma usina de reciclagem)”, explica.Vida útil de bateria pode ser de até 10 anosAlguns fabricantes dizem que a vida útil da bateria desses veículos — período em que a bateria se mantém em bom funcionamento — pode chegar a oito anos, enquanto outros dizem que pode chegar a 10.O professor Edson Watanabe, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro titular da Academia Brasileira de Ciências (ABC), destaca que a vida útil delas pode depender tanto da garantia do fabricante quanto do uso.“Existem artigos sugerindo que a vida da bateria pode ser aumentada se o usuário evitar carregar além de 80% da capacidade ou descarregar abaixo de 20% e também evitar usar cargas rápidas com carregadores de 100 kW, por exemplo”, diz Watanabe.Além do desgaste natural de operação, outros fatores podem contribuir para a degradação da bateria, incluindo variações de temperatura, impactos mecânicos e condições inadequadas de operação, como uma descarga profunda, por exemplo, que compromete significativamente a durabilidade.A perda média anual em veículos elétricos varia de 2% a 3%. Passados os oito anos, o equipamento ainda retém entre 75% e 85% de seu SoH.A segunda vida das bateriasA bateria que não tem mais força suficiente para tracionar um carro ainda pode ter serventia em outras funções. Segundo Watanabe, alguns estudos mostram que a baixa capacidade de carga pode também ser utilizada para armazenamento de energia em residências ou indústrias.Na Ufam, por exemplo, existe um projeto que aplica baterias de segunda vida tanto na eletrificação rural da Amazônia quanto no avanço da eletromobilidade fluvial, por meio de embarcações elétricas.Quanto à dependência do lítio, os cientistas já buscam alternativas para o futuro. O sódio — um material muito mais barato e abundante — é o candidato mais promissor para substituir o mineral nas baterias. Há outros modelos no mercado, como as baterias de sal, já adotadas por algumas marcas, e as de alumínio, que estão em desenvolvimento.

Imagem colorida de um carro elétrico carregando a bateria - Metrópoles
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Descarte de baterias de carros elétricos é desafio ambiental e do governo
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