Há frases que nos fazem sorrir no momento em que as ouvimos, mas que, por alguma razão, continuam a ecoar dentro de nós muito depois de o sorriso desaparecer.

A senhora, a corda e um país à procura de esperança
A senhora, a corda e um país à procura de esperança · Imagem: Source: www.telanon.info

Algumas são ditas sem intenção de ensinar, sem grandes palavras ou discursos elaborados. No entanto, acabam por revelar verdades que, por vezes, preferimos não ver.

A senhora, a corda e um país à procura de esperança
A senhora, a corda e um país à procura de esperança · Imagem: Source: www.telanon.info

A história que vos quero contar começou em Ponta Baleia, nas proximidades de Malanza, no distrito de Caué, no sul da ilha de São Tomé. Estava a participar numa actividade de consulta comunitária, cujo objectivo era ouvir as pessoas, compreender a sua relação com o território e recolher contributos para a conservação da natureza.

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Como ecólogo, habituei-me a olhar para a natureza como uma grande rede de relações, na qual cada elemento desempenha um papel, por mais pequeno que possa parecer. Nesse dia, levei comigo uma actividade simples, mas que considero particularmente poderosa. Distribuí pelos participantes pequenas etiquetas de papel com os nomes de diferentes elementos da natureza: animais, plantas, água, montanhas, ar e outros componentes dos ecossistemas.

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Depois, com um fio, começámos a ligar esses elementos, construindo uma espécie de teia. À medida que a actividade avançava, cada pessoa segurava uma parte do fio e percebia que aquilo que acontecia a um elemento podia afectar muitos outros.

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A mensagem era simples: na natureza, quase nada existe isoladamente. A sobrevivência de uma espécie pode depender de outra; a saúde de uma floresta influencia a disponibilidade de água; e a alteração de um elemento pode desencadear consequências que se propagam por todo o sistema. A teia tornava visível aquilo que, muitas vezes, não conseguimos observar a olho nu: a interdependência que sustenta a vida.

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No final da actividade, circulei uma folha para que os participantes registassem os seus nomes e as respectivas assinaturas. Era um procedimento habitual, necessário para documentar a participação na reunião. Foi então que uma senhora, já de idade avançada, fez um comentário que, à primeira vista, pareceu apenas uma observação bem-humorada. Disse, em tom descontraído, que, quando chegássemos à ponte sobre o rio Io-Grande, deitaríamos fora todos aqueles nomes, porque, no fim, aquilo não daria em nada.

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Algumas palavras podem parecer banais quando são pronunciadas. Naquele momento, porém, a frase ficou comigo. Não tanto pelo que dizia sobre a folha de presenças, mas pelo que talvez revelasse sobre a experiência de vida daquela senhora e de tantas outras pessoas.

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O que leva alguém a participar numa reunião e, ao mesmo tempo, acreditar que nada mudará depois dela?

O que acontece a uma comunidade quando as pessoas deixam de esperar resultados concretos das suas próprias palavras? E quantas reuniões, consultas, promessas e compromissos serão necessários para que alguém conclua que é mais prudente não acreditar?

Não sei o que terá vivido aquela senhora para chegar àquela conclusão. Seria injusto presumir que conheço a sua história. Mas a sua observação levou-me a pensar numa realidade que merece ser discutida em São Tomé e Príncipe: a possibilidade de algumas pessoas terem acumulado tantas experiências de expectativas frustradas que começaram a encarar as novas promessas com desconfiança.

Talvez já tenham participado em reuniões em que lhes pediram opiniões, explicado os seus problemas e apresentado as suas preocupações. Talvez tenham ouvido compromissos que nunca chegaram a concretizar-se. Talvez tenham visto projectos anunciados com entusiasmo desaparecerem sem explicação. Ou talvez tenham aprendido, simplesmente, que ser ouvido nem sempre significa ser levado a sério.

Quando estas experiências se repetem, algo importante começa a mudar. A pessoa deixa de perguntar o que poderá acontecer e passa a perguntar se vale a pena acreditar.

A esperança, que deveria alimentar a participação, começa a dar lugar à resignação. E, pouco a pouco, a desconfiança pode transformar-se numa forma de protecção: se não espero nada, talvez não volte a decepcionar-me. Este fenómeno não é exclusivo de São Tomé e Príncipe.

Em diferentes sociedades, a confiança nas instituições, nos dirigentes e nos próprios mecanismos de participação depende, em grande medida, da correspondência entre aquilo que se promete e aquilo que efectivamente se faz. As palavras podem mobilizar as pessoas uma vez; são os resultados que as convencem a continuar a participar.

Ao ler “O Mundo Até Ontem”, de Jared Diamond, voltei a reflectir sobre a forma como as sociedades constroem os seus valores, organizam a vida colectiva e enfrentam os conflitos. A obra convida-nos a olhar para diferentes formas de organização social e a questionar alguns pressupostos das sociedades contemporâneas. Não oferece respostas simples para os desafios do nosso país, mas ajuda-nos a reconhecer que a maneira como vivemos em comunidade, resolvemos problemas e tratamos os outros resulta de hábitos, valores e escolhas que se vão consolidando ao longo do tempo.

Também me lembrei de Robert Putnam e dos seus estudos sobre o capital social: as redes de relações, a cooperação e a confiança que permitem às pessoas trabalhar em conjunto em benefício de objectivos comuns. Uma sociedade não se constrói apenas com estradas, edifícios, escolas, hospitais ou outros investimentos materiais. Precisa igualmente de relações de confiança, de sentido de responsabilidade colectiva e da convicção de que a participação de cada pessoa pode fazer a diferença. É aqui que a imagem da teia construída em Ponta Baleia ganha um significado que ultrapassa a ecologia. Tal como na natureza, também a vida em sociedade é feita de relações e interdependências.

Uma comunidade não depende apenas das decisões de quem governa. Depende também da forma como os cidadãos se relacionam, do respeito pelos compromissos assumidos, da honestidade com que os problemas são discutidos e da capacidade de cada um reconhecer que as suas escolhas têm consequências para os outros.

Mas há uma diferença fundamental: na sociedade humana, a confiança não se mantém apenas porque estamos ligados uns aos outros. Precisa de ser alimentada por comportamentos concretos.

Não basta pedir às pessoas que participem; é necessário demonstrar que a sua participação tem valor. Não basta recolher opiniões, assinaturas ou listas de presenças; é preciso explicar o que foi feito com os contributos recebidos, quais as decisões tomadas, que dificuldades surgiram e o que ainda falta fazer. Uma consulta comunitária não deveria terminar quando se recolhe a última assinatura.

Deveria continuar através da comunicação, da prestação de contas e do acompanhamento dos compromissos assumidos. Mesmo quando não é possível concretizar uma proposta, é importante explicar porquê. A transparência não elimina todos os problemas, mas ajuda a impedir que o silêncio seja interpretado como indiferença. Talvez seja precisamente aqui que começa uma parte importante da mudança de que precisamos.

Se queremos comunidades mais participativas, temos de criar condições para que as pessoas voltem a sentir que vale a pena participar. Se queremos instituições mais respeitadas, precisamos de instituições que cumpram os seus compromissos e reconheçam os seus erros. Se queremos cidadãos mais disponíveis para contribuir para o bem comum, temos de lhes mostrar que a responsabilidade não termina quando a reunião acaba. Isto exige muito mais do que discursos inspiradores. Exige continuidade, seriedade e trabalho.

Exige que os pequenos compromissos sejam respeitados, mesmo quando não dão origem a fotografias, cerimónias ou grandes anúncios. Exige que se valorize a palavra dada e que se compreenda que a confiança, uma vez fragilizada, não se recupera de um dia para o outro. E esta responsabilidade não pertence apenas aos dirigentes políticos ou às instituições públicas. Estende-se às escolas, às universidades, às organizações da sociedade civil, às empresas, às comunidades e a cada um de nós. Todos contribuímos, de alguma forma, para o ambiente de confiança ou desconfiança em que vivemos.

Por vezes, esperamos que a mudança comece sempre nos outros: nos governantes, nas instituições, nas pessoas que ocupam posições de liderança. E, naturalmente, quem assume responsabilidades públicas tem um dever acrescido de agir com transparência e prestar contas.

Mas também devemos perguntar a nós próprios o que fazemos quando nos comprometemos com alguma coisa, quando alguém deposita confiança na nossa palavra ou quando temos a oportunidade de contribuir para resolver um problema colectivo. Uma sociedade não perde a confiança de um dia para o outro. E também não a recupera apenas porque alguém anuncia que chegou o momento de mudar.

A confiança reconstrói se através de experiências repetidas que demonstram que, desta vez, as coisas podem ser diferentes. Talvez a senhora de Ponta Baleia tivesse razões de sobra para desconfiar. Talvez a sua frase escondesse uma história que nunca chegarei a conhecer. Não tenho como saber. Mas espero que, um dia, possa participar numa reunião, ouvir os compromissos assumidos e regressar a casa com a sensação de que valeu a pena ter estado presente.

Gostaria que, quando alguém lhe pedisse para assinar uma folha de presenças, não sentisse necessidade de fazer uma piada sobre o destino daqueles nomes. Gostaria que pudesse acreditar, não por ingenuidade, nem porque alguém lhe pediu que tivesse esperança, mas porque a experiência lhe demonstrou que a sua voz foi ouvida e que alguma coisa mudou.

Afinal, a esperança não consiste em acreditar que tudo vai correr bem. Consiste em reconhecer que as coisas podem melhorar e em encontrar razões concretas para continuar a trabalhar nesse sentido. São Tomé e Príncipe tem desafios importantes pela frente, mas também tem pessoas, conhecimentos, recursos naturais, criatividade e capacidade de iniciativa.

O futuro não está inteiramente nas mãos de uma única pessoa, de uma instituição ou de um Governo. Constrói-se através de milhares de decisões, compromissos e gestos que, juntos, podem produzir mudanças significativas. Naquele dia, em Ponta Baleia, comecei por construir uma teia para explicar a interdependência dos elementos da natureza. Acabei por levar comigo uma reflexão sobre a interdependência das pessoas e sobre a fragilidade da confiança que as une.

A senhora tinha uma corda nas mãos, mas deixou-me uma lição que não cabia em nenhuma lista de presenças: uma sociedade não precisa de pessoas que acreditem em todas as promessas; precisa de pessoas que, juntas, consigam transformar algumas delas em realidade. E talvez seja precisamente aí, entre o fio que nos une e a esperança que ainda nos resta, que comece o futuro que tanto desejamos para São Tomé e Príncipe.

Hugulay Albuquerque Maia

09 de outubro de 2026

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